a cidade e as terras

Junho 24 2010

Os chips e as vuvuzelas. Eu sei muito bem onde é que os mandava enfiar os chips e as vuvuzelas. Assim, estavam sempre localizados, não os carros guiados por motoristas, mas os próprios iluminados. Sempre localizados. Podíamos até comprar detectores de políticos que nos permitissem viver mais sossegados, sabendo da distância que ficava entre nós. Até podiam ser criados alarmes, para nos alertar quando alguma destas criaturas se aproximasse de zonas livres. E as vuvuzelas, pois, também as vuvuzelas, no mesmo sítio e junto ao chip. Também elas ficavam identificadas e podíamos sair à rua com um detector e uma moca de Rio Maior a distribuir bordoada aos selvagens que insistem em nos massacrar os ouvidos ou em restringir a nossa liberdade.

publicado por Joao AC às 11:11

Junho 22 2010

Nada como Carmen Miranda para ilustrar o "South American Football". A diferença é tal, que dou por mim a torcer irracionalmente  pela eliminação de (quase) todas as selecções europeias, que mostram um futebol estilo Valium, bom para longas noites de insónia e triste como o estado da nossa economia. Em oposição, os sul americanos mostram alegria, apesar da pobreza dos seus países, e um futebol contagiante que desperta qualquer um para a beleza que o futebol pode ter. Neste campeonato, talvez mais do que em qualquer outro, as barricadas estão bem definidas entre os "cientistas" do futebol que o encaram como uma luta de 90 minutos pelo erro, e os "artistas" que olham os 90 minutos como uma oportunidade para se divertirem e mostrarem o que podem fazer com uma bola. Portugal saltou ontem a barricada, mostrando um futebol à sul-americana, que até incluiu um golo acrobático do Ronaldo seguindo de um delicioso sorriso de diversão. Espero que por esse lado se mantenha, apesar dos esforços científicos de Queiroz. A bem do futebol e do país.

publicado por Joao AC às 15:20

Junho 21 2010

A selecção portuguesa não esteve ao nível da sua história de país humanitário. O massacre de hoje terá, por certo, consequências devastadoras nos jogadores da Coreia do Norte, que estarão a temer pelas suas famílias e que dificilmente passarão incólumes à humilhação a que expuseram o seu Querido Líder. Ainda teremos Ronaldo e Companhia julgados por crimes contra a humanidade.

publicado por Joao AC às 22:12

Junho 21 2010

O país estará anestesiado, pelo menos até ao jogo com o Brasil, com a concretização da teoria do ketchup frente à Coreia do Norte. Olhando para exemplos recentes, fico a temer pela brevidade do anúncio da suspensão do subsídio de Natal ou outra qualquer medida de austeridade.

publicado por Joao AC às 15:10

Junho 16 2010

Francisco José Viegas no "A Origem das Espécies"

 

 

"Provavelmente devia estar ocupado a estagiar para o jogo de hoje da selecção nacional, mas o affair Nigella Lawson tinha ficado por tratar. Não há assuntos como os verdadeiros assuntos, e o assunto é este: a Sofia Vieira descobriu, creio que com uns séculos de conveniente demora, que o programa de Nigella Lawson (o derradeiro, Nigella Bites — o talk show é uma miséria) não tem nada a ver com culinária e gastronomia mas apenas com «badalhoquice». Uma descoberta desta natureza merece aplauso, sobretudo quando se descortinam «mamas, ancas e lambuzice» como elementos constituintes da «programação Nigella» e não, vá lá, «alta cozinha» pelo menos «na sua variante gourmet», o que quer dizer que aquelas meias-horas de cozinha são engodo para atrair homens carentes e rapazes com saudades do tempo em que as mulheres exibiam «a opulência de uma madonna de Rafael», coisa que acho desastrada, uma vez que as mulheres a sério nunca a abandonaram verdadeiramente.

Vamos e venhamos, esta não é a maior descoberta desde que se inventou a penicilina ou iniciou a comercialização da Bimby. Por que razão os homens ficam a sorrir, enterrados no sofá, enquanto a burguesinha Nigella, muito posh (nem por isso), discreteia e assassina os «manuais de boas práticas»? Porque ela encarna tudo o que esses homens gostam, o que já não é pouco: badalhoquice, dedos a pingar, erros de paralaxe, idas furtivas à cozinha a meio da noite — pessoalmente, é verdade que também gosto muito das ancas, das mãos, do busto (digamos assim), dos braços, do penteado, da maneira como inclina a cabeça, da falta de erudição, da mania de beber rosé e da abundância de chocolate.

A «cozinha de homens», a cozinha destes chefs actuais, é muito impositiva e, surpreendentemente, amaneirada — laboratorial, decorativa, cheia de técnicas de empratamento, de arquitectura e de luvas. Os artistas transformaram a cozinha numa «oitava arte» que daqui a uns tempos se esgotará sem novidades nenhumas, seca, circunstancial e mais cheia de maneirismos do que uma modelo anoréctica que vomita quando vê as páginas de gastronomia da Esquire americana, que agora redescobriu «a cozinha de Cape Cod» (cheia de dedos a pingar, chouriços, peixes gordos, batatas, tiras de carne grelhada, ervas). Aliás, «na sua variante gourmet» a cozinha está quase toda igual. A «cozinha de autor», que só pelo nome parece deliciar meio mundo, não é nada «de autor»: está fabricada pelo mesmo escantilhão, com as mesmas manias, os mesmos tiques, as mesmas «reduções», os mesmos truques. Falta-lhe alma, sabor, gordura, inspiração. Mesmo os legumes, são todos iguais e ainda não descobri gente que mais odeie os vegetais do que esta. E os culpados são muitos parvenus de gastronomia que têm falta de mundo, de comunicação e de aprendizagem — e de cozinha. O problema é que grande parte dos críticos de gastronomia não cozinham. Não sabem como é simples cozinhar melhor do que aquilo. Pelo contrário, sem cozinhar excepcionalmente, Nigella obriga-nos a regressar a um «paradigma saboroso» na cozinha: quando não era o resultado de uma histeria nem de um «manual de boas práticas». E cozinhar é sujar as mãos, precisamente, misturar, inventar, invocar, molhar os dedos, provar, lamber a colher, tudo isso. Precisamente ao contrário da «cozinha contemporânea», que é toda igual e está cheia de paneleiricies.

Por que é uma mulher a despertar esta polémica? Ah, claro. Os homens foram sempre grandes artistas na cozinha, grandes técnicos, grandes teóricos. Mas as mulheres foram as escravas da cozinha. Ouço um chef falar dos seus pratos e não me comovo por aí além; lembro-me das avós, das mães, das tias das nossas famílias, que passaram anos, séculos, escravizadas pela cozinha, obrigando-se a alimentar famílias egoístas, machistas e eufóricas, sem serem elogiadas. Nigella é a vingança de todas elas — sensual, bonita, vingativa, opulenta, sedutora. Fala-se da «cozinha dos criadores», mas a cozinha das avós e das mães (tirando a geração de 60, que é uma desgraça que nem a Bimby sabe manejar) é que nos fez crescer a comer coisas substanciais, deliciosas, memoráveis. A minha avó inventava (por causa da falta de dinheiro, por causa da prática da «economia doméstica») pratos a partir de nada, e eram deliciosos. Uma parte dos grandes chefs são os artistas para uma burguesia exibicionista, que é mais ou menos passiva em matéria de gosto, com bolsa mas sem estômago, e sem disponibilidade. Nigella tem 50 anos e tem ancas e mamas. Temos o direito de gostar dela e de sermos insultados por causa dela, mesmo que nunca tenhamos cozinhado um dos seus pratos, incluindo a meia dúzia deles que é comestível."

publicado por Joao AC às 17:35

Junho 15 2010

Há que reconhecer que o futebol da selecção tem alguma inspiração portuguesa, com raízes nos discursos de Jorge Sampaio, no cinema em geral, no Expresso, em José Mário Branco ou na situação actual do país. Maçador e depressivo.

publicado por Joao AC às 17:20

Junho 12 2010

Está aberta a temporada da bola. Decidi que, por uma vez, vou reter as sábias palavras de Artur Jorge quando dizia que via os jogos de futebol ao som de música clássica. A amostra de ontem foi suficiente para temer pelos meus ouvidos e sanidade mental caso veja os jogos com o som da televisão. Só acho que vou trocar Chopin por Duke Ellington ou Miles Davis, pois o jazz parece-me melhor companhia para o efeito. Nos dias da selecção terei de optar entre Madredeus para me acalmar das idiossincrasias de Queiroz ou Xutos para espicaçar o ânimo. O único senão é terei saudades do Gabriel Alves.

publicado por Joao AC às 14:52

Junho 10 2010

Embasbaquei ao ver aquela senhora de cabelo estranho que parece que foi Ministra da Cultura - e da qual apenas me lembro por maus motivos desde os tiques estalinistas ao aborto ortográfico - ser hoje condecorada. O mais estranho é que constou que foi pelo seu trabalho no governo. Lembrei-me de imediato das palavras de Almeida Garret "Foge, cão, que te fazem Barão. Para onde? Se me fazem Visconde".

publicado por Joao AC às 22:53

Junho 08 2010

Nos últimos tempos, tenho-me imaginado a percorrer o país em busca de vovuzelas, com o fito de comprar todas as disponíveis. Depois, convocaria um happening num qualquer sítio público de Lisboa e, com a ajuda dos amigos, criaríamos um inesquecível momento de destruição, perante o desespero de todos os cretinos que teimam em andar a soprar nestas coisas pela rua fora.

publicado por Joao AC às 22:39

Junho 08 2010

"Volver", Carlos Gardel

 

publicado por Joao AC às 18:01

palavras soltas de um provinciano acomodado a Lisboa com uma grande compulsão para sair a correr terras
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