a cidade e as terras

Janeiro 31 2010

O fim de semana na terra mostrou-me como, no meio de um torpor que parece atravessar a sociedade, afinal as pessoas ainda mexem e se mexem por causas. Quando tudo à volta parece adormecido, em particular a minha cada vez mais tranquila terra - onde nada parece se passar, no que isso tem de bom e de mau -, num repente há uma sucessão frenética de eventos, envolvendo centenas de pessoas na organização, e que ainda vai a meio do percurso que termina em Março. Jantares com música ao vivo, torneios de cartas, vendas de garagem, caminhadas, espectáculos de teatro. A pacata cidade será nos próximos meses palco de uma movimentação inédita, que já leva a receios de algumas pessoas de não aguentarem tantas solicitações. Tudo em nome da Liga Portuguesa Contra o Cancro e da luta contra essa tão malfadada doença. Quando a sociedade parece ausente, quando este mundo parece cada vez mais egoísta, vão sendo iniciativas como esta que nos mostram que as pessoas ainda estão vivas e capazes de o mostrarem em nome dos bons sentimentos. O resultado é tão eficaz que transformaram a minha cidade ao ponto de já hesitar aos fins de semana se este será o melhor destino para descansar.

publicado por Joao AC às 22:11

Janeiro 29 2010

Rio de Janeiro, Brasil, 2009

 

O "Samba do Avião" por Tom Jobim e Miúcha.

publicado por Joao AC às 16:29

Janeiro 29 2010

 

 

ANIVERSÁRIO - FERNANDO PESSOA (ÁLVARO DE CAMPOS)

 

(Aqui dito por Paulo Autran)

 

"No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

 

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

 

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..."

 

A propósito do espectáculo "Remix em Pessoa", por Jô Soares, em cena no Teatro Villaret.

publicado por Joao AC às 11:01

Janeiro 28 2010

Acho graça a este lugar, de um vasto insólito algures entre um western-spaghetti de Sergio Leone, onde as espingardas são substituídas por mochilas e garrafas de água, e um oásis marroquino sem árabes nem djellabas, mas com ponchos e gorros de lã de lama.

publicado por Joao AC às 00:19

Janeiro 27 2010
publicado por Joao AC às 23:54

Janeiro 26 2010

O sol brilha espelhado na água lá em baixo. Acabo o copo e peço outro Pisco Sour. "Sim, pode trazer umas empanadas para picar". A tarde foge atrás da luz e eu deixo-me ficar.

publicado por Joao AC às 20:39

Janeiro 26 2010

 

San Pedro de Atacama, Chile, 2010

publicado por Joao AC às 20:20

Janeiro 26 2010
publicado por Joao AC às 14:54

Janeiro 25 2010

O inverno potencia uma das minhas grandes dúvidas existenciais: porque teimo em viver em Portugal?

publicado por Joao AC às 14:20

Janeiro 25 2010

Parece que os vampiros entraram na moda. Subitamente e sem aviso, émulos do Conde Vlad Drakul entram pelas nossas vidas. Entramos numa livraria e temos de fintar pilhas de “luas novas” e crepúsculos. Acendemos a televisão e logo aparecem caras pálidas e sem vida, olhos vazios, sangue a rodos. Uns até fazem complicadas coreografias envolvendo saltos mortais. Eles andam aí. Numa época de tirania do saudável, houve quem achasse que o adequado contraponto seria dado por criaturas meio-vivas ou que assim o parecessem. Não deve tardar a que na rua o pálido tome conta das caras, tornando bonitas mulheres em múmias desinteressantes. Até a SIC se prepara para lançar uma série sobre vampiros portugueses que me faz temer o o pior. Como tudo isto me ultrapassa, apesar de gostar muito do “Drácula” de Coppola e do “Por favor não me mordam o pescoço” do Polanski, acho que o melhor mesmo é ficar-me por uns vampiros pouco pálidos e que muito me animam. Comprei o “Contra” dos Vampire Weekend e já não me sinto tão deslocado desta febre dos vampiros.

publicado por Joao AC às 00:39

Janeiro 25 2010

 

San Pedro de Atacama, Chile, 2009

publicado por Joao AC às 00:18

Janeiro 21 2010

 Sabe bem poder voltar a dizer “bom dia” sem a sensação de soar a uma total disparate.

publicado por Joao AC às 18:22

Janeiro 21 2010

- Olá João, tudo bem? O que fazes hoje à tarde?

- Tudo óptimo. Olha, não tenho nada combinado, mas estou mesmo com vontade de beber uma cervejas.

- Fantástico. Encontra-mo-nos no Jobi pelas sete.

- Perfeito. Bebemos 39 choppes cada um e petiscamos uma picanha ao alho.

publicado por Joao AC às 18:19

Janeiro 15 2010
publicado por Joao AC às 20:02

Janeiro 15 2010

 Há algum tempo que estava para nascer. A preguiça, a eterna e firme preguiça, ia adiando o inevitável. Dúvidas sobre a escolha do template e das cores, qual a fotografia certa para o cabeçalho. Hoje o dia pareceu-me bem. Chove e está desagradável, mas a sardinha portuguesa vai ter certificação de qualidade. Neste tempos em que há dias para tudo acho bom presságio começar um blog no dia da sardinha. Nada mais português, comido gulosamente por cidades e terras deste cantinho. Quase me apetecia mudar o nome do blogue para o "blogue da sardinha". Uma vez mais a preguiça não me deixa, armada em consciência crítica da mudança. Fico muitas vezes na dúvida se quem vai ganhando é a preguiça ou uma irreprimível tendência conservadora. Voltando à sardinha, que na época diluviana se vai consumindo mais em latas da sempre recomendável Conserveira de Lisboa - por falar nisso, estou já sem stock e com muitas saudades das petingas compradas da última vez -, só espero que esta moderna certificação não leve a que os estrangeiros descubram esta preciosidade e resolvam arrasar com os nossos stocks, com perigosas consequências para a nossa sanidade gastronómica e para as nossas festas populares. Gosto quando nos reconhecem, em particular por reconhecerem não só o peixe, como as formas de pesca e sustentabilidade de recursos, mas receio por um aumento desmesurado dos preços ou por uma escassez de oferta que nos estrague a vida lusitana. Sei que não será muito altruísta, mas às vezes é melhor as coisas boas ficarem em segredo, apenas ao alcance de alguns privilegiados que têm o conhecimento da coisa e dos labirintos que a elas conduzem,  como nos conduzem ao Europa, ali para Campo de Ourique, ou ao Pátio 13, lá por Alfama, na demanda da boa e pequena sardinha. O que vale é que quase ninguém lerá isto e que estes sítios continuarão cheios pelos habituais que já sabem o caminho para a sardinha como deve ser. Este texto era sobre um blogue e transformou-se numa ode à sardinha portuguesa. Enfim, serão estas idiossincrasias que passarão por este blogue, serão devaneios entre a cidade e as terras, desta terra, doutras terras e até de outros mundos.

publicado por Joao AC às 19:57

palavras soltas de um provinciano acomodado a Lisboa com uma grande compulsão para sair a correr terras
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