a cidade e as terras

Fevereiro 05 2010

Cheguei atrasado e já tinham pedido por mim. Sabia que era a dita especialidade da casa, mas estava a contar com um rolo de carne com farinheira. Sushi-alentejano. Achei a coisa exótica, mas por bondade de espírito aceitei esperar para ver como se cruzavam duas cozinhas tão ricas, numa ligação digna do surrealismo de Breton. Nigiri de pimentão marinado em flor de sal ou de alheira com ananás, sushi de linguiça de porco preto ou de frango picante, entre outras variações. O cozinheiro até teve o cuidado de retirar um pouco do avinagrado do arroz para melhor cruzar os sabores. A coisa era vagamente comestível, mas gastronomicamente deplorável.

A demanda da modernidade e do cosmopolitismo traz consigo conceitos como a cozinha de fusão, termo já de si um pouco irritante, mas há, e sempre haverá, uma diferença entre ser moderno e cosmopolita e ser, simplesmente, moderninho. Nesta divagação lembrei-me do estado da sociedade portuguesa e do governo que temos, e então percebi que afinal este sushi-alentejano fazia sentido, fazia, aliás, todo o sentido. O país está entregue a um esforço desmesurado por parecer moderno e cosmopolita, mas o caminho que percorre vai levá-lo a ser uma coisa que poucas vezes na nossa história fomos,  moderninhos. Como o sushi-alentejano.

publicado por Joao AC às 12:04

palavras soltas de um provinciano acomodado a Lisboa com uma grande compulsão para sair a correr terras
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